freud-lacan: Re: lutecium-group: Appel à vos connaissances
Mirian Giannella
giannell at uol.com.br
Fri Dec 6 20:21:26 GMT 2002
CONTARDO CALLIGARIS
Simulando a vida
Na "New York Times Magazine" de domingo passado, David Brooks (o autor de
"Bubos no Paraíso") comentava o lançamento da versão on-line dos "Sims".
Os "Sims" (os simulados) é um jogo para computador que existe desde 2000 e
que se tornou extremamente popular. Nada a ver com os cenários de combate de
"Quake" ou "DukeNukem". Nada a ver com o mundo heróico e fantástico de
"Final Fantasy". Nos "Sims", os jogadores circulam num habitat parecido com
o mundo da classe média (sobretudo suburbana) e são convidados a simular a
banalidade da vida.
Você volta do trabalho, prepara o jantar, vai ao shopping, ocupa-se das
crianças, chama o encanador, lava os pratos, briga com seu ex, tenta
encontrar alguém interessante para sair, paga as contas etc. Quando tudo
isso acaba, senta-se ao computador e faz tudo de novo, na tela, simulando.
Qual é a graça?
Eu imaginava, inicialmente, que a graça consistiria em compensar as
frustrações do cotidiano. Os jogadores poderiam se inventar mais bonitos e
mais bem-sucedidos. Aproveitariam a simulação para ludibriar seus superiores
e pensar, enfim, no seu prazer. A dita simulação seria, em suma, uma
transformação radical.
Mas a razão do sucesso dos "Sims" não foi essa. Frequentei um pouco os sites
de discussão para jogadores dos "Sims". Descobri o seguinte: quem joga na
esperança de se tornar Indiana Jones ou Lara Croft cansa rapidamente. A
maioria dos jogadores assíduos parece inventar máscaras, mundos e
dificuldades iguais às de sua vida real.
Até agora, essas eram apenas impressões, pois, como saber o que cada um faz,
jogando sozinho com o programa, na intimidade de seu disco rígido? A partir
de dezembro, a coisa mudará. Pagando uma pequena mensalidade, os jogadores
internautas poderão conviver e interagir no mesmo mundo simulado.
Nos últimos meses, mais de 35 mil pessoas jogaram os "Sims" nesse mundo
virtual comum, com o intento de testar o sistema (inicialmente previsto para
1 milhão de jogadores). David Brooks teve acesso a esse teste e confirma: o
barato dos "Sims" consiste em duplicar as tribulações do cotidiano, não em
escapar para outra vida. Estranho? Nem tanto.
Somos todos Madame Bovary. Ou seja, podemos viver na mediocridade, mas
sonhamos com grandes paixões: meu trabalho é chato, meu parceiro não transa
direito e fala pior ainda, mas leio Bárbara Cartland e assisto a "Titanic".
No entanto, à diferença de Madame Bovary, nós somos leitores de "Madame
Bovary", o livro. Ou seja, fugimos, como ela, enveredando em sonhos extremos
de amor e de aventura, mas nem toda a ficção, para nós, é evasão ou
compensação. Às vezes, gostamos de sonhar com a vida que temos e queremos
histórias que mostrem a banalidade medíocre de nossos dias, histórias, por
exemplo, que contem a vida de Madame Bovary. Por quê?
Pelas mesmas razões pelas quais se escrevem diários: para que a vida de cada
dia tenha a dignidade de uma história contada. Os diários provam que a vida
deve valer, ao menos, a tinta necessária para contá-la. Os "Sims" têm a
mesma função: se volto para casa e simulo meu dia na tela, é uma maneira de
afirmar que minha vida merece ser contada ou simulada. Quem sabe o jogo no
universo paralelo dos "Sims" reavive, em nossa cultura, o carinho pela vida
como ela é.
Há um outro interesse dos "Sims". Em sua versão on-line, o jogo será um
laboratório. Psicólogos e sociólogos terão acesso a um universo construído
por milhões de pessoas que, interagindo, inventam uma vida em comum. É uma
extraordinária ocasião de descobrir e medir modelos culturais, ideais
sociais, tendências etc.
Um exemplo, desde já. David Brooks relata que, durante o teste do sistema,
Will Wright (inventor dos "Sims") foi impressionado pelos esforços que
muitos jogadores consagravam à tarefa de encontrar amigos que quisessem
compartilhar casa ou apartamento (isso no mundo virtual dos "Sims"). Parecia
que eles estavam mais preocupados em constituir um grupo de faixas com quem
dividir o aluguel do que em procurar uma alma gêmea com quem viver a dois.
A observação de Will Wright me fez pensar num adolescente com quem tenho
conversado um pouco nestes dias. Durante o colégio, ele não teve sorte em
amor e conheceu só prazeres solitários. Chegado à universidade, eis que ele
gostou de uma moça que gostou dele. Passaram um ano juntos, felizes. De
repente, ele quer sair da relação porque, declara, tem nostalgia "do grupo
dos amigos".
Há razões singulares para essa vacilação, mas a observação de Will Wright
aponta para uma explicação cultural imprescindível.
Para a geração que chega hoje à idade adulta, o ideal de uma vida que valha
a pena não é dramático e intenso, não é, por exemplo, uma paixão amorosa. Ao
contrário, a vida sonhada é leve (ou leviana?) como uma sucessão de piadas
entre amigos. Seu modelo não é mais a novela, brasileira ou mexicana que
seja, mas o seriado: justamente, "Seinfeld" ou "Friends", em que não há
amores, só amigos engraçados que vivem juntos e se divertem. Como se
divertem...
ccalligari at uol.com.br
----- Original Message -----
From: "Jean-jacques MOSCOVITZ" <jjmoscov at noos.fr>
To: <lutecium-group at lutecium.org>
Sent: Friday, December 06, 2002 3:50 PM
Subject: Re: lutecium-group: Appel à vos connaissances
> lutecium-group: Document interne au Groupe de Travail Lutecium.
> Ne doit pas être diffusé hors du groupe.
> ---
> mon nom est MOSCOVITZ avec un beau Z
> amitiés
> jjm
> ----- Original Message -----
> From: "Thierry Lechevalier" <thierry.lechevalier at libertysurf.fr>
> To: "lutecium-group" <lutecium-group at lutecium.org>
> Sent: Friday, December 06, 2002 3:21 PM
> Subject: Re: lutecium-group: Appel à vos connaissances
>
>
> Bonjour,
> F. Benslama semble attaché à ce que son titre soit bien "la psychanalyse
au
> risuqe de l'islam" sans quoi c'eut été un autre livre.
> Sa conférence sous les auspices de JJ Moscovici était passionnante.
Dommage
> que certain soient venus sans avoir lu son livre.
> Cordialement,
> Thierry Lechevalier
>
>
> Fromowner-lutecium-group at lutecium.org
>
> To
>
> Cc
>
> DateFri, 6 Dec 2002 08:52:41 -0200
>
> SubjectRe: lutecium-group: Appel à vos connaissances
>
>
>
> > lutecium-group: Document interne au Groupe de Travail Lutecium.
> > Ne doit pas être diffusé hors du groupe.
> > ---
> > L'adresse e-mail de Contardo Calligaris est:
> > ccalligari at uol.com.br
> > ccalligari at aol.com
> >
> > À +
> > Mirian Giannella
> >
> > ----- Original Message -----
> > From: "Jean-jacques MOSCOVITZ"
> > To:
> > Sent: Friday, December 06, 2002 5:25 AM
> > Subject: Re: lutecium-group: Appel à vos connaissances
> >
> >
> > > lutecium-group: Document interne au Groupe de Travail Lutecium.
> > > Ne doit pas être diffusé hors du groupe.
> > > ---
> > > vous etes contardo calligaris?
> > > salut de jjm
> > > ----- Original Message -----
> > > From:
> > > To:
> > > Sent: Thursday, December 05, 2002 8:50 PM
> > > Subject: Re: lutecium-group: Appel à vos connaissances
> > >
> > >
> > > Merci de ce premier message reçu, (dont je regrette l'absence de
> signature
> > > personnelle) mais il a le mérite d'exister ..... Le ton utilisé me
> laisse
> > > supposer qu'y répondre me vaudra de nouvelles ironies... tanpis.
> > >
> > >
> > > > La psychée générale (....autant pour moi : je voulais mettre
> > > "personnelle",
> > > > opposée à collective) et collective, l'actualité, l'intervention de
> > l'une
> > > > sur
> > > > l'autre, blah blah blah...
> > >
> > > .... Ce "blah blah blah" : que veut-il dire de précis, en dehors du
fait
> > qu'
> > > il fiche à la poubelle du bavardage des théories qui ont été élaborées
> par
> > > de
> > > grands noms ? Cela ne suffit pas à en faire des vérités absolues nous
> > sommes
> > > d'accord, alors parlons des arguments contradictoires, c'est tellement
> > plus
> > > intéressant que les jugements lapidaires .
> > >
> > > >
> > > > "La psychée personnelle et collective" ?
> > > > C'est quoi ce machin-là; quel rapport avec la psychanalyse ?
> > > > TELEVISION ?....MDR
> > > ....Ai-je parlé de rapport avec la psychanalyse ?
> > > Ce site ne parle QUE de psychanalyse ?
> > >
> > > >
> > > > Que les média (ils médiatisent quoi au fait de nos jours?)
rapportent
> > > > la violence réelle, constatée par l'écrit ou par l'image; leur rôle
> > > > s'arrête
> > > > là; le contrôle que les média exercent de nos jours est presque
> > > > totalitaire,
> > >
> > > ....Faire ce constat, qui n'est pas totalement exact, doit exclure
> > > l'hypothèse qu'il puisse en être autrement ?
> > >
> > > > Ne comptez pas sur la psychanalyse pour vous encourager dans votre
> > > > jouissance,
> > > ....?
> > >
> > > > d'ailleurs la psychanalyse c-à-d à la fois Freud et puis...Lacan se
> sont
> > > > déjà
> > > > exprimés à ce propos.
> > > > ....Jung aussi, selon une approche très différente, et bien
d'autres,
> > qui
> > > > fort heureusement ne disent pas tous la même chose. Mais si vous
> voulez
> > > > bien me dire ce que Freud et Lacan ont exprimé "à ce propos" (lequel
> > > > exactement) cela pourrait m'éclairer...
> > > > Merci.
> > > >
> > > > D. Contardo
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